O PT (Partido dos Trabalhadores) oficializou nesta semana sua saída do governo de Eduardo Riedel (PP) em Mato Grosso do Sul, entregando os 25 cargos que ocupava na administração estadual. A decisão, tomada em reunião reservada na Governadoria com parlamentares e dirigentes da legenda, é uma resposta direta à guinada política do grupo de Riedel, que se aproximou do bolsonarismo após a debandada do PSDB estadual para o PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rompimento marca o fim de uma aliança construída no segundo turno das eleições de 2022, quando o PT apoiou Riedel contra o bolsonarista Capitão Contar (PRTB) e garantiu uma ponte com o governo federal — responsável por viabilizar investimentos e articulações políticas no estado.
“Eles tomaram a decisão de se aliar àqueles que ajudamos a derrotar. Isso impossibilita qualquer aliança”, resumiu o deputado federal Vander Loubet (PT-MS), em referência à migração do ex-governador Reinaldo Azambuja (ex-PSDB) ao PL. Segundo Loubet, a decisão foi motivada pela ruptura da base política original de Riedel e pelo esvaziamento da interlocução com os setores progressistas.
A bancada petista estadual, composta por três deputados — Zeca do PT, Pedro Kemp e Gleice Jane —, reforçou que a saída será negociada de forma pacífica e que continuará apoiando ações institucionais do Estado, sem abandonar o diálogo republicano. “Estamos saindo pela porta da frente, como entramos”, afirmou Kemp.
Fissura na elite política: o racha dos Trad
Em meio ao realinhamento partidário, um novo fato político amplificou a crise de identidade da elite política sul-mato-grossense: o ex-deputado federal Fábio Trad anunciou sua filiação ao PT, em aberto confronto com o irmão Nelsinho Trad (PSD), atual senador e aliado do bolsonarismo local. A adesão de Fábio foi selada durante reunião com a cúpula nacional petista e a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, no Palácio do Planalto.
“Eu nunca tive voto de fascista. Quero distância do fascismo. Isso me enoja e macula minha imagem”, declarou Fábio Trad, em entrevista ao site Campo Grande News. Ele lembrou ainda o histórico de perseguição política do pai, Nelson Trad — cassado e preso após o golpe de 1964 —, como razão moral para não compactuar com setores que flertam com o autoritarismo. “Meu pai foi torturado psicologicamente pela ditadura. Dormia em colchão molhado, ouviu que seria jogado de avião. Foi vítima do fascismo”, disse.
A resposta de Nelsinho veio com dureza. O senador afirmou que o irmão “virou as costas” à tradição da família: “A gente sempre disputou eleição contra o PT”. Já Marquinhos Trad (PDT), ex-prefeito de Campo Grande, adotou posição conciliadora e saiu em defesa de Fábio: “Quem mudou foram os que agora viraram extremistas de direita. O Fábio é o mesmo desde sempre.”
O episódio escancara uma divisão familiar que transcende o âmbito doméstico. A disputa entre os irmãos Trad espelha a polarização nacional e evidencia a dificuldade de manutenção de um campo político centrista em um ambiente dominado por extremos. “Ou você está ao lado das forças democráticas, ou ao lado das forças golpistas”, definiu Fábio Trad, ao explicar sua entrada no PT.
PT busca nova articulação: Tebet no radar
A saída do governo Riedel e a chegada de Fábio Trad ao partido integram um movimento mais amplo de reconfiguração da esquerda em Mato Grosso do Sul, que busca uma frente ampla para 2026. A ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), desponta como possível nome para disputar o governo do estado ou o Senado — hipótese considerada por lideranças locais como estratégica para enfrentar a consolidação do bloco conservador.
“Por que não a Simone Tebet?”, provocou Fábio Trad, que vê na ministra uma aliada do projeto democrático e uma figura com “mais experiência administrativa” do que ele próprio. No entanto, pondera que qualquer decisão dependerá da articulação com o Planalto. “Lula também precisa ser consultado sobre o quadro em Mato Grosso do Sul”, disse.
A movimentação petista passa ainda pela possível candidatura do deputado Vander Loubet ao Senado e pela recomposição de forças para fortalecer a bancada federal. “Quero estar em uma comissão importante, como a de Constituição e Justiça, para barrar investidas da extrema direita”, afirma Fábio Trad, que considera que a próxima disputa presidencial se dará entre Lula e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Para ele, Tarcísio representa um bolsonarismo menos ruidoso, mas ainda mais perigoso: “Menos chucro, mas com mais potencial de enganar”.
Fonte: semanaon